«O bem que possui quem se exercita na oração, há muitos santos e almas boas que o têm escrito - digo - da oração mental. Glória seja dada a Deus por isso! E quando assim não fosse, embora eu seja pouco humilde, não sou tão soberba que disto ousasse falar.
Daquilo que tenho experiência, posso dizer que, por males que faça quem começou a ter oração, não a deixe, pois é o meio por onde pode tornar a emendar-se e, sem ela, será muito mais dificultoso. E não o tente o demônio, do mesmo modo que a mim, de a deixar por humildade. Creia que não podem faltar as palavras do Senhor, arrependendo-nos deveras e determinando-nos a não O ofender, Ele volta à amizade que tinha e a fazer as mercês que antes fazia, e, às vezes, muito mais se o arrependimento o merecer.
A quem ainda não a começou, por amor do Senhor lhe rogo, não careça de tanto bem. Não há aqui que temer senão que desejar. Mesmo quando não for avante mas se esforçar a ser perfeito que mereça os gostos e regalos que Deus dá a estes, pouco a pouco irá entendendo o caminho para o Céu; e se persevera, espero eu na misericórdia de Deus, pois ninguém O tomou por amigo que não lho pagasse. E outra coisa não é, a meu parecer, oração mental, senão tratar de amizade - estando muitas vezes tratando a sós - com quem sabemos que nos ama. E se ainda O não amais (porque para que seja verdadeiro o amor e para que dure a amizade hão de encontrar-se as condições: a do Senhor já se sabe, não pode ter falta; a nossa é ser viciosa, sensual, ingrata), não podeis por vós mesmas chegar a amá-Lo, porque não é da vossa condição; mas, vendo o muito que vos vai em ter a Sua amizade e o muito que vos ama, passais por esta pena de estar muito com Quem é tão diferente de vós.»
— Sta. Teresa d'Ávila, Livro da vida, 8.5