John Mearsheimer permanece sendo o clássico contemporâneo da escola realista em relações internacionais. Pode-se sempre confiar nele como representante de uma perspectiva bastante consistente e, muitas vezes, útil e precisa sobre o comportamento das grandes potências.
Mas muitas vezes é possível considerar, também, que a sua perspectiva consistiria numa projeção das ações e intenções de um tipo específico de Estado ocidental norte-atlântico da era de ascensão do liberalismo, e nem sempre os padrões percebidos por ele podem ser universalizados.
A obra "A Tragédia da Política das Grandes Potências" é interessante por perceber, identificar e classificar determinados padrões comportamentais nas relações exteriores das grandes potências em relação a outras grandes potências.
De um modo geral, Mearsheimer acredita que todo Estado sempre buscará a hegemonia planetária e que isso dita todo o seu comportamento. Curiosamente, ele afirma que nenhum Estado nunca a alcançou. Ele nega, portanto, que houve algo como um período unipolar nos anos 90, e acredita que os EUA eram apenas um hegemon regional, dominando apenas as Américas. Ao mesmo tempo, ele acredita que nem Rússia, nem China podem ser considerados hegemons regionais.
Segundo ele, ao perceber que um determinado Estado possui pretensões a uma hegemonia regional, outras grandes potências dispõem de um pequeno arsenal tático, as duas opções principais sendo balancear em relação ao adversário ou "passar o balde" (ou seja, transferir responsabilidade). Balancear significa responder simetricamente aos acúmulos de poder do rival, passar o balde significa fortalecer um terceiro país e empurrá-lo contra o rival. Potências menores podem, ainda, preferir abraçar a potência emergente para evitar tê-la como inimiga.
Ele dá incontáveis exemplos históricos recentes para exemplificar a sua tese, que no âmbito tático se sustenta muito bem, mas não dá conta de explicar alianças e/ou parcerias estratégicas entre grandes potências regionais geograficamente próximas.
Pela tese de Mearsheimer, necessariamente, uma grande potência regional sempre se aliaria a uma grande potência regional distante para enfrentar uma grande potência regional próxima. A parceria Rússia-China, portanto, fica sem explicação. Talvez Mearsheimer considerasse que essa parceria só foi possível porque os EUA teriam antagonizado a Rússia; mas os EUA também tentaram cortejar, especialmente sob Trump, a Rússia para empurrá-la contra a China, e isso não funcionou.
Ele faz, porém, interessantes considerações sobre a "paz nuclear" e seus limites. Segundo Mearsheimer, nenhuma potência se satisfaz com um impasse nuclear, e todas seguirão buscando novas maneiras de garantir superioridade sobre seus inimigos. Ademais, ele insiste na centralidade das forças terrestres convencionais - o que faz sentido, mas revela também a limitação de seu enquadramento geopolítico: como hegemonia significa, para Mearsheimer, dominação e controle através de forças terrestres convencionais, ele necessariamente tem que negar que, nos anos 90 pelo menos, os EUA tinham hegemonia mundial.
Finalmente, no epílogo ele comenta sobre se a China pode ascender pacificamente. Na prática, ele acredita na inevitabilidade de uma dura competição militar entre China e EUA, levando a um conflito inevitável, no mínimo naval, entre ambos países. Como se trata de uma previsão teremos que esperar para ver se a sua leitura faz sentido. Porém, o esforço chinês para alcançar seus objetivos sem o uso da força é notável, então talvez um conflito não seja tão inevitável assim. Os EUA também estão tendo dificuldade para manobrar a Coreia do Sul contra os chineses, então a Ásia pode acabar "decepcionando" os EUA.
Em conclusão, acho benéfico que Mearsheimer também ressalta que um "mundo multipolar" será um mundo propenso a conflitos, especialmente se este mundo multipolar for composto por grandes potências regionais com graves assimetrias de poder entre si.